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Nem tudo cabe na mochila | 01

Acredito porque já quase morri.

Nesta quarta-feira, dia 27/11, completo 31 anos! 🎉 Eu amo fazer aniversário. Assim que novembro começa, já entro na contagem regressiva para o meu dia – e sempre foi assim.

Mas uma experiência que vivi mudou minha perspectiva: não só passei a amar ainda mais essa data, como comecei a enxergá-la de um jeito diferente. A ideia de envelhecer me traz alegria, porque, afinal, só envelhece quem está vivo.

Ainda assim, sei que muitas pessoas não sentem o mesmo. Para elas, fazer aniversário ou ficar mais velho é quase um problema. E é exatamente sobre isso essa conversa.

O texto que você está prestes a ler nunca foi publicado antes. Escrevi há alguns anos, inspirado no pior dia da minha vida – que, paradoxalmente, trouxe uma enorme virada de chave.

O título dele é o mesmo desse email: Nem tudo cabe na mochila.

Dizem que quando você quase morre a sua vida passa toda em frente aos seus olhos, e que depois disso ela muda. Essa frase soa tão clichê que nem sei se alguém, que nunca passou por uma situação dessas, acredita.

Eu acredito. Acredito porque já quase morri.

Cidade do México, terça-feira, 13h11.

Eu tinha acabado de chegar do trabalho, mas, antes de ir pra casa, passei na feira. A casa onde eu morava na época tinha 3 andares e o piso era de madeira. A cozinha ficava no último andar.

Eu morava com vários amigos e, nesse dia, alguns deles também estavam em casa, além da Tere, a senhora simpática que cuidava da limpeza.

Alguns dias antes, durante a noite, houve um terremoto considerado leve. Eu nunca tinha sentido nada parecido. Sou brasileira, e no Brasil isso não existe, mas no México sim.

Imagina só: do nada, o chão da sua casa, da rua, da cidade inteira começa a tremer. Tudo treme. Os objetos dentro de casa começam a cair, e você não sabe exatamente o que fazer, até porque, se o chão está tremendo, onde é seguro?

Fiquei assustada e um pouco traumatizada depois dessa primeira experiência, mas nada se comparava ao que estava por vir…

Eu tinha acabado de colocar minhas compras da feira na mesa da cozinha e estava conversando com a Tere quando tudo começou a tremer de novo – mas dessa vez era muito mais forte.

Lembro exatamente da sensação do chão tremendo, de olhar para a mesa, para a Tere, e dizer: "não, não, não". E o que você faz numa hora dessas? Você corre. E foi o que eu fiz. Desci os 3 andares correndo o mais rápido que podia porque atrás de mim tinha mais gente tentando se salvar também.

Parecia que eu estava bêbada. Eu simplesmente não conseguia andar direito, porque a casa tremia tanto que era difícil descer as escadas. O desespero tomou conta de mim, e foi ali que vi a minha vida passar diante dos meus olhos.

Senti a morte tão próxima que quase pude ouvir ela me dizendo "Oi". Só conseguia pensar que ia morrer sem me despedir dos meus pais.

Consegui sair, meus amigos também. Depois de chorar muito na calçada, voltei correndo pra casa para pegar o que considerava importante – o que eu achava que não poderia perder caso a casa desabasse.

Dentro da mochila, coloquei meu notebook, o carregador, meu passaporte e meu celular novo.

Quando a adrenalina passou, pude ver o que aconteceu ao meu redor.

Na esquina da minha casa, um prédio de 6 andares, cheio de gente na hora do terremoto, havia desmoronado. Muitas pessoas foram resgatadas. Muitas não.

Foi nesse momento que entendi que nada do que estava dentro da minha mochila era realmente importante.

Meus pais não estavam na minha mochila. Pessoas importantes pra mim não estavam na mochila. Momentos importantes também não estavam lá. A minha vida não estava na mochila. E nem caberia. Muito menos a gratidão por estar viva.

Depois desse dia, eu mudei.

Minha maneira de ver e viver a vida mudou, como vejo o mundo também. Minha lista de "coisas importantes" também passou por uma mudança.

Eu espero que você não tenha que passar por uma experiência como essa para perceber que o que você tem de mais importante na vida, você não pode colocar dentro de uma mochila.

Que a gente não precise quase morrer para valorizar estar vivo. Para dar valor a essa oportunidade única de estar aqui.

Fazer aniversário e ficar mais velha é uma experiência incrível. Estamos vivos afinal.

E a vida é boa demais, bora viver. ✨

Não há nada mais importante que o nosso tempo, obrigada por compartilhar o seu comigo. Até o próximo domingo.

Beijo,

Ananda